Pelé, uma ideia
Houve um homem chamado Edson. Nasceu em Três Corações, Minas Gerais, num Brasil que ainda engatinhava no século. Edson pagava impostos, envelheceu, teve filhos, errou como erram os homens, morreu numa tarde de dezembro. Mas Edson carregava dentro de si um inquilino imortal: Pelé. E Pelé, ao contrário de Edson, nunca foi exatamente uma pessoa. Pelé sempre foi uma ideia.
As ideias têm dessas vantagens sobre os corpos: não sentem cãibra, não rompem o menisco, não recebem intimação. Quando o menino de Bauru engraxava sapatos para ajudar em casa, a ideia já estava lá, esperando, paciente como esperam as coisas inevitáveis. Bastou um gramado na Suécia, em 1958, e um chapéu sobre um zagueiro atônito, para que a ideia saísse do corpo de um garoto de dezessete anos e entrasse, de uma vez por todas, no imaginário do mundo.
Desde então, Pelé deixou de ser substantivo próprio. Virou adjetivo, virou medida, virou régua. O Pelé do xadrez. O Pelé da medicina. A Pelé do tênis. Quando queremos dizer que alguém é o melhor naquilo que faz, não recorremos a Aristóteles, a Einstein, a Da Vinci — recorremos a um filho de Dona Celeste. O dicionário Michaelis acabou rendendo-se ao óbvio e registrou: "pelé, aquele que é fora do comum". Nenhum atleta jamais conquistou território tão definitivo. Não o pódio, não a estátua: a língua.
E a língua, como se sabe, é onde as ideias moram de aluguel vitalício.
Há quem discuta, em mesas de bar e em redes sociais, se ele foi mesmo o maior. Comparam números, vídeos granulados, épocas incomparáveis. Discussão inútil e, ainda assim, deliciosa, porque o simples fato de toda comparação começar e terminar nele já é a resposta. Ninguém pergunta se fulano é melhor que Garrincha, que Maradona, que Messi. Pergunta-se sempre, no fim, se é melhor que Pelé. Ele é o denominador. É contra a ideia que todos jogam.
O corpo de Edson se foi no fim de 2022. Mas reparem: ninguém enterrou Pelé. Não se enterra uma ideia. Ideias não cabem em caixões; cabem, no máximo, em meninos. E lá estão eles, agora mesmo, em algum campo de terra de Três Corações, de alguma parte pobre da Bahia(Minha terra mas não sou um Pelé) descalços, driblando latas, narrando a si mesmos em voz alta o gol que ainda não fizeram. Em cada um deles, a ideia recomeça. Porque é isso que Pelé sempre foi: a prova, vestida de camisa dez, de que um país inteiro pode caber num drible. Edson morreu, como morrem os homens. Pelé, não. Pelé é uma ideia, e ideias, quando são boas de bola, não param nunca de correr.
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